quarta-feira, 21 de maio de 2008

DA REGÊNCIA DO VERBO “FICAR”




Outro dia, estava eu a refletir sobre como as pessoas se conhecem, simpatizam-se, namoram e se casam. Antigamente não era bem assim. Minha avó contava que os casamentos eram arranjados: não se escolhia o marido ou esposa, aceitava-se, simplesmente, a vontade dos pais.

As coisas foram mudando com o passar do tempo. Na época de meus pais, já se paquerava. Rolava todo aquele lance de olhares, gestos, piscadelas e por aí ia. Eu até soube que meus pais namoraram escondidos e que casaram às pressas, pois minha mãe engravidou antes do casório. Coisa normal hoje em dia, mas naquela época... Meu avô ficou muito bravo e os obrigou a casar. O casamento perdurou até o falecimento dela, coisa não tão normal hoje em dia.

Já na época dos meus irmãos mais velhos, tudo mudou um pouco. Já se “agarravam” sem compromisso, rolavam aqueles beijos sem que ninguém soubesse. E, quando meus pais descobriram, era surra na certa! Minha irmã ficou muito de castigo, a coitadinha! Mas aqueles beijos deles, na maioria das vezes, acabavam em namoro, mas não como o namoro da época de meus avós, que terminavam certamente em casamento. Era um namoro passageiro, muito gostoso, mas que poderia dar em casamento também, dependeria deles.

Já na minha adolescência, deu-se um novo sentido ao verbo FICAR: “namorar” sem compromisso por uma noite, ou ainda apenas transar. É uma desculpa que as pessoas solteiras criam para não ficarem sozinhas e, ao mesmo tempo, saciarem sua carência, sempre que puderem, com pessoas diferentes. E para onde vai o sentimento nesse caso? O mais comum atualmente é que os namoros se iniciem a partir de simples “ficas”. Quando percebem que o seu (sua) “ficante” são legais demais para ficarem apenas por uma noite, eles “ficam” mais vezes, tornando, assim, um ato fugaz num gostoso “rolo”. E como é bom estar enrolado a alguém!

Já vejo com olhos preocupados meus sobrinhos. O que o tempo preparou para a geração deles? O “ficar” continua vigorando em meio às rodinhas de amigos. Quem nunca “ficou”? Nossa! Existe alguém que nunca tenha dado uns beijinhos sem compromisso? Mas o que é realmente preocupante são os valores pregados a essas comunidades mais jovens. Esses valores - morais - têm se tornado obsoletos, as pessoas são quase que usadas, seja para uma inocente noite de namorico, seja para uma transa. Não deveria ser assim, pessoas não devem ser tratadas como objetos. É bom “ficar”, mas com certeza ter alguém para partilhar bons e maus momentos, confidenciar, respeitar, amar... Gente, amar e ser amado não tem preço!

O ideal seria se pudéssemos aproveitar um pouquinho de cada geração: o respeito da época de nossos avós; a malícia inocente da época de nossos pais; a ousadia pueril da época dos irmãos mais velhos e a carência afetiva de nossa época. O que teremos no porvir? Só podemos esperar para ver...

(Dedico esse texto aos meus sobrinhos: Adrielle, Edaine, Rafaela, Roberta, Arllan, Lucídio Jr., Elias Neto, Maria Antônia, Jamile, Mariana, Davi, Átila Jr. e Vinícius.)

Um comentário:

waldemir disse...

Gostei da "receita" final do texto... Amar e ser amado tão tem preço, só quem já experimentou sabe disso! Respeito e outros valores tão esquecidos hoje. Vale a pena recordar! Valeu garoto!