quinta-feira, 26 de junho de 2008

MATURIDADE PRECOCE

Era dia de prova. Todos estavam sentados em suas carteiras, concentrados nos seus testes de final de semestre. Eu, também sentado, fiscalizava aquelas pequenas criaturas em seu processo de avaliação.

Em dado momento, um dos alunos presentes, do 5º ano, levantou-se e veio até onde eu estava e disse:

- Professor, já terminei a prova! – disse entregando-me o seu teste.

- Ótimo, pode sentar-se, Júnior*.

- Antes eu posso te fazer uma pergunta, Adriano? – ele me inquiriu com um ar de riso estampado no olhar.

- Faça! – respondi.

- Adriano, tu ‘tem’ namorada?

- Tenho, por quê?

- Ela é gostosa? – sorriu.

- Que pergunta, Júnior! Vá sentar! – disse encarando aquele garoto que não devia ter mais de 11 anos.

- Adriano, tu ‘quer’ bem dizer que tu nunca ‘deu’ um trato nela?

- O que é “dar um trato”, Júnior? – indaguei maliciosamente.

- Tu ‘sabe’... Ou tu nunca ‘tratou’ uma mulher?

- Sim, sempre as trato bem, com o devido respeito, coisa que você deveria estar fazendo agora...

- Adriano, tu ‘entendeu’ o que eu disse... “Tratar uma mulher”, “pegar ela de jeito”, “dar um amasso”, sabe, né?

- Quem ensinou isso a você, Júnior?

- Meu pai! Ele me ensina tudo sobre mulheres, diz que tenho que ser igualzinho a ele. Ele tem minha mãe e mais três namoradas. Já me ensinou tudo como tem que se fazer com uma mulher.

- Acho que faltou lhe ensinar o principal... Vá sentar, depois conversamos.

Ele saiu com um sorriso de deboche no rosto e eu fiquei estupefato sentado no meu lugar e matutando com aquela situação inusitada. Que menino precoce! No mesmo instante lembrei-me de que aos 11 anos, eu brincava na rua e não pensava em mais outra coisa a não ser em estudo e em brincadeiras. Namorar? Nem pensar!

Semanas depois esse mesmo aluno veio me oferecer um vídeo que ele estava “vendendo” via Bluetooth no celular. O vídeo era da irmã dele, de 15 anos, trocando de roupa. Ele estava oferecendo o “produto” por 30 reais aos colegas. Muitos haviam comprado. Mais uma vez ele conseguiu me surpreender. Será que os pais sabiam daquilo? Comuniquei o fato à coordenação para que tomasse as devidas providências. No dia seguinte, soube que o pai não o tinha punido e que achou engraçado ele vender o vídeo da irmã nua.

Nessa mesma semana, ele veio dizer que estava namorando. Por alguma razão ele confiava em mim para contar seus casos. Eu ouvia a tudo e dava meus conselhos, os quais - tenho certeza - não eram escutados, pois a voz altiva e viril do pai, sobressaía-se em seus ouvidos, fato normal, pois os filhos são educados a ouvirem seus pais, eles estando certos ou não. Mas quem era eu para interferir na educação que o pai dava a Júnior? Senti que o melhor era silenciar.

- Estou namorando a Samanta do 4º ano. Ela é a maior gatinha da sala! Sabe o que eu fiz?

- O quê, Júnior? – perguntei com receio do que eu iria ouvir, esperando algo pior do que já ouvira antes.

- Eu me filmei no meu celular “batendo uma” para ela e enviei pro celular dela... – ele ria alegremente como se tivesse dado o melhor presente do Dia dos Namorados.

Essa foi demais! Fiquei sem reação e não pude deixar de perguntar:

- E o que ela disse?

- Ela adorou, mas teve que apagar do celular, porque a mãe dela poderia ver... Chato, né?

Se antes fiquei sem reação, com essa última resposta paralisei totalmente. Quais os valores que essas crianças estão adquirindo? Como duas crianças com cerca de 10 anos de idade podem ter esses pensamentos lascivos tão presentes em suas cabeças “pueris”? Ou será que eu é que estou sendo quadrado e antiquado diante da nova juventude?

Ei, mas eu não sou tão velho assim! Tenho 22 anos, beirando os 23 e vivo toda a modernidade dos dias atuais. Sou “antenado” à internet, tenho celular de última geração, namoro, enfim, faço tudo o que uma pessoa normal da minha idade faz. Acho que o fator normalidade é que está “pegando” neste caso. Júnior tem um instrutor que para ele é um modelo a ser seguido, um homem preconceituoso e viril, o típico “machão”: seu pai. Que lamentável! A única pergunta que faço (novamente) é: onde vamos parar?

Concordo que as crianças devem ter um pouco de maturidade, mas tudo dentro do limite, sem esquecer que são crianças. Calvin, personagem de “Calvin e Hobbes”, criado por Bill Watterson, é um garotinho extremamente precoce e que sempre usa da prolixidade para expressar suas idéias de cunho moral. Essa sim é a maturidade que vale a pena as crianças terem e que muitos adultos estão precisando, não apenas o pai do Júnior.

*O nome do aluno é fictício, porém o fato é real.

domingo, 8 de junho de 2008

PAIXÃO NO SENTIDO FIGURADO

Sinto que há uma grande elipse dentro de mim, algo que sei que está faltando... Causada talvez pela distância que nos separa. Saudade é o nome que dão a ela por aí. E seria um pleonasmo (vicioso ou não?) dizer que te quero e não usarei de nenhuma hipérbole para dizer que, sem você, eu perderia meu brilho. Entenda isso como um eufemismo para figurar que não vivo sem você, ou melhor, vivo sim, mas não quero!

Viajo em meus pensamentos sempre que vejo seu doce sorriso, o qual é acompanhado de um olhar sedutor e gentil, e ele me convida a sorrir com você. Sinestesia? Prosopopéia? Não, não... Prefiro chamar isso de sintonia.

E a metonímia de dizer que quero sua presença não é suficiente, pois sua presença é apenas uma parte de você, não mataria essa sede. Metáfora? Catacrese? Também não... Prefiro chamar isso de vício. E esse vício me inebria a tal ponto que, quando em sua presença, sucumbo diante de uma crise de anacolutos os quais não me deixam verbalizar o que quero. E olha que nem pretendo ser prolixo!

Sou somente seu...”: meu professor de Literatura chama isso de aliteração. Eu não. Eu chamo de paixão. Em virtude disso, prefiro ser irônico e dizer que você é apenas mais uma pessoa não merecedora de qualquer antonomásia.

Adoro teu sorriso

Adoro teu olhar

Adoro teu jeito...”

E sigo a escrever por repetidas anáforas (pleonasmo de novo?) o quanto você é adorável. E encerro dizendo que todos os apaixonados pensamos bobagens. Eu sei... Sei que usei uma silepse, mas não sei se de gênero, de número ou de pessoa, mas vou perguntar a meu professor para acabar com essa metalinguagem que me consome...

A.A.M.