quarta-feira, 21 de maio de 2008

Conto de uma obsessão infantil


Conto de uma obsessão infantil

Marta já não sabia mais o que fazer. Desde que se mudou, sua filha de seis aninhos, Clarinha, não queria dormir só, vivia assombrada. Clarinha tinha um sono leve e perturbado por pesadelos nos quais ela se via morrendo afogada, empurrada por outra criança na piscina de sua casa.

A mãe era só preocupação. O pior era que, além dos pesadelos, Clarinha já afirmava ver a menina do pesadelo quando estava acordada. Isso aconteceu poucas vezes, mas o suficiente para tornar a menina uma criança apática e chorosa. Onde estava a alegria d’antes de Clara? Era o que sua mãe se perguntava constantemente. Marta conversara com Otávio, seu esposo, sobre o problema da filha e ambos concordaram que aquilo já havia ultrapassado o limite da normalidade.

Marta, certo dia, deixou sua pequena brincando na sala enquanto preparava o almoço. De súbito, ouve um grito agudo e apavorado. Era sua filha. Correu rapidamente até a sala largando tudo que estava fazendo na cozinha.. Quando chegou na sala, a menina estava desmaiada. Marta correu para socorrê-la como por instinto e pôs a menina no colo. Algo, porém, deixou a mãe intrigada e fê-la arrepiar-se da cabeça aos pés: Juca, o poodle de estimação da família, latia feroz e insistentemente olhando para um canto vazio da parede da sala, como se tivesse alguém ali. Clarinha acordou. Graças a Deus! Juca cessou seu latido e correu aos pés da dona.

- Mamãe, eu vi, ela ‘tava’ aqui!

Otávio e Marta acharam por bem levar a menina a um especialista. A garota fez alguns exames e sessões psiquiátricas. O médico constatou uma leve esquizofrenia em desenvolvimento.

Passaram-se semanas e nada mudou, a não ser Clara, que vinha definhando a cada dia, cada vez mais pálida e triste. Os pais estavam começando a achar que tinham “perdido” sua filha. Dentro da família, normalmente, a criança desempenha o papel de alegria da casa. Os pais não viam Clarinha sorrir há cerca de dois meses. Também já não freqüentava mais a escola. As visões e pesadelos da menina só aumentavam.

A família foi convidada para o aniversário do filho do casal vizinho. Otávio achou que o contato com outras crianças pudesse ajudar Clarinha. Na festa, os adultos confraternizavam enquanto as crianças divertiam-se na piscina, menos Clarinha, que olhava para tudo marginal e apaticamente. Ana, a vizinha, em determinado momento perguntou a Marta se eles já haviam se adaptado à nova casa. A vizinha mencionou o quão triste foram os últimos meses para eles devido a um fato trágico: o filho mais velho de oito anos, numa briga com a irmã, de seis anos, empurrou a menina na piscina. Era tarde demais quando ele se deu por conta do que havia feito à irmã, ele não sabia nadar e chorou desesperadamente por socorro, mas a irmã morreu afogada. A vizinha contava sua triste história com o olhar umedecido. Uma lágrima caiu ao lembrar do sorriso da filha que morrera.

Marta e Otávio entreolharam-se assustados. Seria possível Clarinha estar tendo algum tipo de comunicação com essa menina ou mesmo estar sendo influenciada pelo espírito da criança morta? Apesar de católicos, não eram céticos, já ouviram falar de casos semelhantes de influências espirituais negativas. Nesse instante, ouviu-se uma gritaria. As crianças agitaram-se e os pais, de longe, pensaram: “É só mais uma briguinha de crianças” e logo se ouviram as crianças gritando: “Papai, papai, ele caiu! Ele caiu!” Otávio, num impulso, correu até lá e, quando chegou, viu Clara com aquele olhar parado e distante olhando para o aniversariante que se afogava na parte funda da piscina. “Foi ela!” – as outras crianças apontavam para Clara. Otávio se jogou na piscina e salvou o garoto a tempo.

Marta e Otávio foram para casa puxando Clara pelo braço. Eles estavam envergonhados e assustados demais. A menina não manifestou nenhuma reação desde o ocorrido, parecia mais um pequeno zumbi. O que eles poderiam fazer contra o espírito vingativo de uma criança? Somente rezar.

DA REGÊNCIA DO VERBO “FICAR”




Outro dia, estava eu a refletir sobre como as pessoas se conhecem, simpatizam-se, namoram e se casam. Antigamente não era bem assim. Minha avó contava que os casamentos eram arranjados: não se escolhia o marido ou esposa, aceitava-se, simplesmente, a vontade dos pais.

As coisas foram mudando com o passar do tempo. Na época de meus pais, já se paquerava. Rolava todo aquele lance de olhares, gestos, piscadelas e por aí ia. Eu até soube que meus pais namoraram escondidos e que casaram às pressas, pois minha mãe engravidou antes do casório. Coisa normal hoje em dia, mas naquela época... Meu avô ficou muito bravo e os obrigou a casar. O casamento perdurou até o falecimento dela, coisa não tão normal hoje em dia.

Já na época dos meus irmãos mais velhos, tudo mudou um pouco. Já se “agarravam” sem compromisso, rolavam aqueles beijos sem que ninguém soubesse. E, quando meus pais descobriram, era surra na certa! Minha irmã ficou muito de castigo, a coitadinha! Mas aqueles beijos deles, na maioria das vezes, acabavam em namoro, mas não como o namoro da época de meus avós, que terminavam certamente em casamento. Era um namoro passageiro, muito gostoso, mas que poderia dar em casamento também, dependeria deles.

Já na minha adolescência, deu-se um novo sentido ao verbo FICAR: “namorar” sem compromisso por uma noite, ou ainda apenas transar. É uma desculpa que as pessoas solteiras criam para não ficarem sozinhas e, ao mesmo tempo, saciarem sua carência, sempre que puderem, com pessoas diferentes. E para onde vai o sentimento nesse caso? O mais comum atualmente é que os namoros se iniciem a partir de simples “ficas”. Quando percebem que o seu (sua) “ficante” são legais demais para ficarem apenas por uma noite, eles “ficam” mais vezes, tornando, assim, um ato fugaz num gostoso “rolo”. E como é bom estar enrolado a alguém!

Já vejo com olhos preocupados meus sobrinhos. O que o tempo preparou para a geração deles? O “ficar” continua vigorando em meio às rodinhas de amigos. Quem nunca “ficou”? Nossa! Existe alguém que nunca tenha dado uns beijinhos sem compromisso? Mas o que é realmente preocupante são os valores pregados a essas comunidades mais jovens. Esses valores - morais - têm se tornado obsoletos, as pessoas são quase que usadas, seja para uma inocente noite de namorico, seja para uma transa. Não deveria ser assim, pessoas não devem ser tratadas como objetos. É bom “ficar”, mas com certeza ter alguém para partilhar bons e maus momentos, confidenciar, respeitar, amar... Gente, amar e ser amado não tem preço!

O ideal seria se pudéssemos aproveitar um pouquinho de cada geração: o respeito da época de nossos avós; a malícia inocente da época de nossos pais; a ousadia pueril da época dos irmãos mais velhos e a carência afetiva de nossa época. O que teremos no porvir? Só podemos esperar para ver...

(Dedico esse texto aos meus sobrinhos: Adrielle, Edaine, Rafaela, Roberta, Arllan, Lucídio Jr., Elias Neto, Maria Antônia, Jamile, Mariana, Davi, Átila Jr. e Vinícius.)